Sobre ilusões e porque eu não quero me apaixonar

Nós vivemos em um mundo de ilusões. Como já dizia o provérbio chinês, passamos grande parte das nossas vidas preocupados com problemas que não existem. Perseguimos dinheiro e prosperidade, sem nos lembrarmos que o dinheiro é apenas mais uma forma de ilusão. Abraçamos e reafirmamos valores que acreditamos ser parte da nossa essência, mas que apenas reafirmam a cultura de ilusão a que estamos envoltos. E no amor, será que não passamos grande parte das nossas vidas almejando e vivendo relações que nada mais são que ilusões?

“A Marcelle tem sempre muitas coisas para fazer”, descreveu minha prima de 11 anos. E não é isso que a gente faz o tempo inteiro? Se enche de coisas para fazer, cria uma to do list  inacançável, uma agenda para o final de semana que nos deixa às vezes mais cansados que descansados, e é claro, relacionamentos que mais nos esvaziam que nos preenchem. Quantas vezes ficamos sozinhos de fato? Sem aquela conversinha fiada no whatsapp, sem aquela pessoa você sabe que você sabe se encontrar vai ficar, sem paquera, sem ficante, sem gaveta?

“Atraídos pela filosofia do consumismo somos como ovelhas tentando preencher nosso vazio interior com bens de consumo e relacionamentos. Estamos adormecidos, somos como zumbis muito atarefados e totalmente distraídos dando respostas inconscientes.” (No coração da vida, Jetsunma Tenzin Palmo)

1-1 Sobre ilusões e porque eu não quero me apaixonar

Há alguns anos eu cheguei a conclusão que eu não quero mais me apaixonar. E não é que não quero ter relacionamentos, é que a palavra apaixonar começou a me despertar algo ruim, mas nunca soube muito bem explicar o porquê. Foi semana passada, em um encontro com Ana Huertas no projeto Can Suari de Cardedeu (Espanha) que entendi com mais clareza o que de algum modo eu já sabia, mas não conseguia racionalizar.

A Ana tem uma explicação sobre a diferença entre falling in love e rising in love. Falling in love se traduzirmos literalmente significa cair de amores, mas comumente traduzimos como se apaixonar. E é o que passamos grande parte das nossas vidas buscando, é o que a nossa cultura nos vende, e o que inconscientemente queremos. Rising in love significa ao invés de cair de amores, crescer naquele amor. Segundo a Ana, qual seria então a diferença entre falling in love e rising in love?

Falling in love X Rising in love e porque eu não quero me apaixonar

(Transcrição da fala da Ana Huertas)

“Na nossa cultura, e quando digo nossa me refiro a cultura ocidental, nós frequentemente utilizamos o termo falling in love. Se apaixonar é algo superestimado na nossa cultura, e celebrado constantemente pela mídia. E mesmo que você venha de uma cultura, ou pense em um idioma que não use a palavra falling in love’ quando você pensa em se apaixonar algo muito parecido vem na sua cabeça.

Quando falamos sobre se apaixonar por alguém, subconscientemente equalizamos com aquele conceito cristão de queda, como cair na graça. E quando fazemos isso, sem percebermos nos afastamos da parte em que o amor realmente existe, porque frequentemente vem acompanhado do medo de perder.

Normalmente é assim: eu me apaixono, e tem aquela coisa incrível, eu mal consigo respirar, e a pessoa precisa ficar comigo o tempo inteiro, e se ela partir eu irei morrer. Se essa coisa maravilhosa que estamos compartilhando acabar irá me causar uma dor imensa, e eu morro de medo da dor.

Dessa forma, muitas das coisas que fazemos quando estamos em um relacionamento é não apoiar a pessoa que nos relacionamos a se tornar excelente, a se tornar o que ela é capaz de se tornar e ainda mais. Nós frequentemente fazemos coisas para manter a outra pessoa pequena, para que possamos tê-la por perto. Então se essa pessoa tem autoestima, ou está ocupada com outras coisas, ou pode ir para outro lugar do mundo, ela poderia facilmente me deixar. E quem sou eu sem a minha outra metade? Um ser incompleto.

2-1 Sobre ilusões e porque eu não quero me apaixonar

Essa é a história que envolve se apaixonar: eu vou conhecer alguém e vou começar a precisar que essa pessoa esteja lá para sempre. E é claro, desde que ela seja como eu quero que ela seja, porque se apaixonar é muito rígido e tem uma grande dificuldade de integrar a mudança. E as pessoas mudam o tempo inteiro, graças a Deus, imagina quão chato seria se não mudássemos?

E quando falamos sobre rising in love, que é o oposto de cair de amores e seria mais algo como crescer no amor. Crescer no amor vem acompanhado de uma emoção mais profunda, mas também pode envolver sensualidade e prazer, não há nada de mal nisso. Mas há uma forte noção do que eu quero que esse amor me proporcione e o que eu quero entregar através desse amor. O que eu quero que esse amor sirva? Eu quero que esse amor faça as pessoas ao meu redor menores ou maiores? Eu quero que esse amor envolva culpa, ou eu quero que ele me inspire e inspire as pessoas ao meu redor?

Essa é a diferença entre se apaixonar e crescer no amor: eu vou continuar sentindo medo quando minhas crianças me deixarem e meu parceiro mudar ou precisar de algo novo, mas eu sei que esse amor existe para nos tornar maiores e não menores e eu dou espaço para que isso aconteça. E quando eu sentir medo ou tristeza, eu vou falar sobre isso isso e eu irei escolher sentir a dor conscientemente e usar essas emoções para me tornar um ser humano ainda maior e melhor.” Ana Huertas

O conceito por trás de rising in love é capaz de nos livrar de uma das grandes ilusões que estamos imersos: a ilusão de que iremos cair de amores por alguém feito para nós, vamos criar uma uma relação incrível (e estática), e que assim seremos felizes para sempre. O conceito por trás de rising in love nos afasta do medo, e só quando nos afastamos do medo somos capazes de amar e crescer no amor. Obrigada a Ana Huertas pelo presente que foi essa conversa!

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