Amar, o grande desafio

Talvez amar seja o grande desafio. A gente pensa que difícil é achar o cara, aquele que vai nos dar borboletas no estômago, mas só a quantidade certa para não dar dor de barriga. A gente pensa que difícil é ser amado e só mesmo se tornando a pessoa certa e eliminando nossas descompensações para alguém gostar de nós. A gente pensa que amor é acaso, sorte ou obra do destino, e se não deu certo ainda é porque não era a hora certa. Mas repito que talvez o grande desafio seja mesmo o ato de amar.

Penso que o amor pode ser a solução para alguns dos grandes problemas da nossa existência. Penso que questionar e resistir as normas de gênero e modelo para as relações é um ato de resistência política e anti opressão. Penso que amar é um ato de transformação,mas para isso precisamos superar o grande desafio que é aprender a amar. Eu destacaria aqui três deles: superar o amor romântico, abraçar a abundância e despertar-se para a prática.  

Desafio 1: Adeus amor romântico

Mesmo com toda minha fé em acasos e energia, acredito que amor é ação, e não obra do destino ou de autor de novela que guarda o melhor do romance para o final. Se o controle do amor estiver nas mãos de alguém, que seja nas nossas, porque onde não há liberdade pode haver compulsão, ou até paixão, mas amor não.

1 Amar, o grande desafio

Por isso, nosso primeiro grande desafio é abandonar o mito do amor romântico, reconhecendo sua inadequação ao mesmo tempo que identificamos sua profunda influência nas nossas vidas. Acreditar em certo e errado faz parte da nossa cultura e poucas vezes conseguimos fugir disso. Pessoa certa, caminho certo, atitudes certas como homens, atitudes certas como mulheres, prazos certos a cumprir na relação e uma série de padrões que na minha experiência são bem difíceis de cumprir.

Deleuze já dizia que “o verdadeiro charme das pessoas reside em quando elas perdem as estribeiras, e não sabem muito bem em que ponto estão”. E eu diria que o mesmo vale para o amor. Todas essas ideias de como pessoas e relações devem ser nos colocam em uma constante posição de insegurança, que torna bem difícil a dissecação de alma que carece o amor.

Ficamos entendidos então que amor é diferente de união simbiótica entre duas pessoas. A união a que me refiro tem como base nossa mente consumista, e por isso é a busca por alguém que valha a pena intercambiar nosso pacote de personalidades. Essa união frequentemente vem com uma certa preguiça do outro quando as primeiras barreiras de proximidade são consumidas.

2 Amar, o grande desafio

Já o amor tem como base o centro da nossa existência, e por isso é conectar essências através da nossa capacidade de se conhecer, conhecer o outro e seguir em frente nessa busca que, por ser muito mais profunda, não se cansa como a efemeridade de uma paixão.

O amor romântico, ou união simbiótica, é fundamentada em medo e separação, por isso é caracterizada pela proteção, poder, dependência e consequente perda de integridade. Por outro lado, amar é conectar sentimento e não só pensamento, é viver o ato de dar-se para o outro sem medo ou sacrifício, e contribuir para que o outro atinja sua mais alta potência e felicidade.

Desafio 2: abraçar a abundância

Nosso segundo desafio é abraçar a abundância. Os poliamoristas trazem ao amor uma contribuição que apesar de soar ameaçadora aos monogâmicos pode ajudar a tornar qualquer relação muito mais saudável: o amor não é escasso. Por mais que estejamos em um relacionamento saudável, estável e feliz, isso não nos impede de sentir desejo, nem tampouco amor por outras pessoas.

3 Amar, o grande desafio

A ideia de amor romântico, que traz consigo o preceito de que existe uma pessoa certa, nos torna altamente seletivos em relação a quem iremos dar nosso amor. Se existe apenas uma pessoa certa, eu não posso perder tempo com as erradas, já dizia o velho ditado. Mas se não existe pessoa certa, e amor não é escasso, eu não vou perder nada em dar o meu amor. Por mais que sejamos monogâmicos, podemos abraçar essa ideia e reduzir muito nossa expectativa em relação a nós mesmos e em relação às pessoas a quem direcionamos nosso amor.

E ainda, se entendo que amor não é escasso, posso finalmente exercer o caráter produtivo de dar. Geralmente quando damos o que quer que seja, julgamos que estamos abrindo mão de algo e nos sacrificando. Mas a verdade é que dar não é perder. Quando damos o que está vivo em nós, trazemos a vida algo no outro e assim necessariamente recebemos de volta.

Desafio 3: despertar para a prática

A terceira é o despertar. Se amar é o desafio, precisamos de prática. Foi preciso um acaso para a maçã cair na cabeça de Newton, mas foi preciso mais que o acaso para Newton criar a teoria da gravidade a partir daí. Amores caem sob nós quando estamos despertos para o amor, senão eles realmente viram apenas longas dores de cabeça em domingos de ressaca.

O amor não é um lugar de descanso embaixo de uma árvore, é um movimento de estar desperto e consciente. O amor é um ato de fé, em si e nos outros, que pede de nós coragem para darmos sem garantias. E o amor pede acima de tudo prática: disciplina, concentração, paciência e preocupação constante em nos tornarmos mestres. Carlos Drummond de Andrade dizia que o amor é privilégio de maduros, e penso eu que maturidade é também ato de vontade.

Referências:

  • Livro A arte de amar
  • Artigo http://www.makezine.enoughenough.org/newpoly2.html

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