Já vai? A era do amor líquido

Já vai? Mas você acabou de chegar. Parece que pegou mesmo a “moda” do amor líquido, tempos em que nada é feito para durar. A impressão que temos é que hoje as paixões surgem e desaparecem com a mesma instantaneidade em que apitam as mensagens em nossos celulares.

Eu já vivi isso, já observei as pessoas ao meu redor vivendo isso, mas por via das dúvidas achei melhor investigar. Primeiramente conversei com várias mulheres para entender porque elas acham que as relações estão acabando tão rápido. (Em um próximo post falaremos sobre os homens), somei isso aos conceitos do livro Amor Líquido de Zigmunt Bauman, e de insights que tive nas conversas com a escritora Alê Barelo e com a  co-fundadora do Cinese, Camila Haddad. Foi com muito suor, reflexões e textos apagados que minhas conclusões sobre como o comportamento feminino está influenciando nos relacionamentos líquidos e como podemos transmutar para uma realidade de relações menos instantâneas foram compiladas nesse post.

Amor líquido e a era da transparência

Em uma das nossas entrevistas, conversei com a escritora Alê Barelo. A Alê estuda transição planetária, e segundo ela um dos principais pilares desse novo ciclo que entramos é a transparência. Transparência significa que eu não consigo mais esconder do outro o que eu penso, o que eu sinto e como eu sou. Ou seja, não estamos mais enganando ninguém, nem a nós mesmos. Portanto, se antes demorava 20 anos para nos vermos em dúvidas nas relações, agora demoramos 20 minutos.

E isso pode ser maravilhoso. Pode ser maravilhoso se, e apenas se, desenvolvermos uma outra característica que segundo a Alê também está entre os pilares dessa nova era: a tolerância. A transparência é boa porque conseguimos ver com muita rapidez se aquela pessoa combina ou não conosco, mas isso vira um problema quando não temos tempo e abertura para conhecer verdadeiramente o outro.  

Porque não damos tempo para conhecer as pessoas?

Já que estamos falando sobre a falta de tempo para conhecer o outro, precisamos abordar a forma impulsiva que consumimos. A verdade é que assim como consumimos produtos por impulso, e jogamos fora sempre que surge outro melhor, consumimos pessoas, quase como se elas fossem também mercadorias nas prateleiras. Olho o produto ali todo bonitão, me encanto, faço de tudo para conseguir comprá-lo, me canso logo que vejo outro produto mais atrativo que ainda não consumi, e jogo fora o velho! Assim a gente pula de galho em galho, de produto em produto, de pessoa em pessoa, vivendo a obsolescência programada das relações.

As mulheres que conversei acreditam que os homens tem mais tendência a consumir por impulso porque eles tem muitas opções, vivem o paradoxo da escolha, e conversando com a Camila Haddad eu percebi que ao contrário do que eu insistia em acreditar, essa é sim uma realidade.

“Relações instantâneas afetam homens e mulheres sim, mas afetam mais as mulheres. Porque os homens estão muito empoderados da escolha, eles não tem a pressão de estar sempre acompanhados, por exemplo. A mulher que está solteira é porque falhou, o homem que está solteiro é porque fez uma escolha, então as mulheres se sentem pressionadas para aceitar até mesmo uma relação que não é tão boa para elas. Os homens não. As mulheres são colocadas em um lugar de insegurança, a gente é muito julgada então é quase como ‘encontrei alguém, essa pessoa gosta de mim e essa é a única chance que eu tenho na vida e pronto!’ ” Camila Haddad

Mas será que nós mulheres também não “consumimos” por impulso?

Sim, os homens estão mais empoderados da escolha, então talvez esteja muito claro a forma como eles pulam de relação em relação. Mas nós mulheres também fazemos isso, mesmo que os motivos não sejam os mesmos. Afinal, diferente dos tempos das nossas avós, hoje temos a escolha de sair mais facilmente de uma relação que nos desagrada e nem sempre são os homens que pulam fora.

Quando questionei as mulheres sobre as expectativas que elas tinham em relação a esses homens  dos quais elas desistiam rapidamente, muitas reconheceram que possuem uma “pequena” listinha de pré requisitos. Nós trazemos conosco uma visão romantizada do homem príncipe, que “quando está afim dá um jeito” e recriminamos grande parte das atitudes que não se encaixam no script.

1-2 Já vai? A era do amor líquido

Quem nunca viveu esse filme? E talvez estejamos certas quando achamos que eles não estão tão afim, mas aí vem a pergunta: será que já era para estar? E ainda, será que não estamos levando expectativas exageradas e romantizadas demais, alimentadas por uma vida inteira de desenhos da Disney, novelas da Globo e filmes de Hollywood?

Nós também entramos nas relações por impulso, porque como bem apresenta Bauman, o desejo leva um tempo para crescer e amadurecer, o que significa que cultivar o desejo é, às vezes, retardar a satisfação, o que é para a nossa geração o maior dos sacrifícios. Justamente por nos sentirmos pressionadas temos pressa, e sem cultivar o desejo criamos relações superficiais, com portas abertas para serem substituídas a qualquer momento.

2-2 Já vai? A era do amor líquido

Eu mesma já vivi minha própria dose de relações líquidas, e a impressão que eu tenho é que muitas vezes eu “consumi por impulso”, criei uma relação superficial e me surpreendi quando vi que o outro talvez não tivesse um sentimento que eu nem mesmo dei tempo e espaço para existir. Citando Bauman mais uma vez, sabendo que a qualquer momento as relações podem acabar, pedimos pouco das pessoas e damos menos ainda, criamos relações superficiais e nos decepcionamos quando vemos que o outro não corresponde nossas expectativas.

Relações líquidas: como lidar?   

3-1 Já vai? A era do amor líquido

Infelizmente não existe fórmula mágica para o amor, e tampouco para criarmos relações menos instantâneas. Mas identifiquei algumas mudanças que nós mulheres podemos ter nos nossos comportamentos para que seja possível transmutar de uma era de relações líquidas para uma era de relações fluidas,que sim não são eternas, mas nem por isso são superficiais. Algumas atitudes que podemos testar em nossas vidas para hackearmos o amor.

  • Diminuir nossas expectativas: a maioria das pessoas hoje se relaciona muito mais com a imagem que tem do parceiro, e não com quem ele verdadeiramente é. Mas, se estamos falando que a transparência ficará cada vez mais evidente, iremos conseguir ver com mais nitidez o outro. Por isso precisamos encontrar formas de abandonar nossas expectativas e todas aquelas ideias equivocadas e romantizadas sobre as relações, para que tenhamos a tolerância que precisamos para construirmos uma relação real, com uma pessoa real.
  • Diminuir o peso: nós entramos nas relações sérias demais, com um certo peso sobre como e quando devemos nos relacionar. Com esse peso social que cria nas mulheres a necessidade de estar em um relacionamento em um mundo onde os homens estão tão empoderados da escolha e podem se distrair e nos trocar com grande facilidade, ficamos altamente inseguras. Com a insegurança perdemos autenticidade, e sem autenticidade criamos relações frágeis e superficiais. É importante tirarmos das nossas costas esse peso e celebrarmos as infinitas possibilidades de nos relacionarmos hoje, que não precisam seguir necessariamente o padrão de outrora e podem inclusive não seguir padrão nenhum.
  • Protagonismo feminino: o “como” devemos nos relacionar ainda se baseia em uma estrutura social que apresenta uma falsa liberdade as mulheres, na qual raramente somos protagonistas na escolha. Nos identificamos com o papel de que precisamos ser escolhidas, mas superar nossa insegurança é entender que o “como” a relação vai se desenvolver pode (e deve) envolver nossa escolha, seja na hora da paquera, seja na hora de efetivamente conquistar o amor do outro. E atuar de forma ativa na relação não significa sermos vulgares ou agressivas, significa simplesmente abandonarmos a ideia que caso o homem não nos conquiste iremos desistir da relação.
  • Trocar impulso por desejo: como temos um peso para estarmos em relações, também entramos nela rápido demais e muitas vezes não identificamos com clareza o que estamos sentindo. Quando abandonamos o impulso de querer estar em uma relação paramos de achar que estamos apaixonadas quando na verdade nem mesmo conhecemos o outro, conseguimos diminuir nossa ansiedade em  definir o que a relação é, para onde ela vai e assim conseguimos criar relações menos superficiais e mais legítimas.

E vocês? Alguma dica para que nós mulheres possamos sair do ciclo de relações instantâneas?

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