Exaustos, correndo, dopados e vazios

Exaustos e correndo e dopados e vazios

“It is the everyday that receives our ‘daily inattention” (George Bataille), é o dia a dia que recebe nossa falta de atenção, e me arrisco a dizer que só é dia a dia se não prestamos a devida atenção. E assim vivemos nossa vida exaustos, correndo e dopados, e sem prestar muita atenção. Escolhemos trabalhos, interações e relações sem significado, que nos deixam vazios e assim só corroboram para que continuemos exaustos, correndo e dopados.

No Love Hacking acreditamos que estamos vivendo um momento muito especial, o “tipping point”, ou ponto da virada como definiu o jornalista Malcom Gladwell. Um tipping point que relaciona-se de maneira sistêmica com diversos aspectos da nossa vida. Por isso buscamos inspiração na economia, na ecologia e na tecnologia para causar uma mudança no modo como experimentamos as relações, e através dessa transformação amorosa buscamos alcançar uma mudança capaz de impactar nossa organização econômica, social e nossa relação com a natureza.

Nesse texto me baseei na teoria das necessidades humanas elaborada pelo economista e ambientalista Max Neef, a qual tive contato recentemente em um curso de Transition Design na Schumacher College. Como podemos então entender melhor nossas necessidades para sairmos desse ciclo exaustos e correndo e dopados e vazios na vida, na economia e no amor?

A teoria das necessidades humanas de Max Neef

  • As necessidades humanas são finitas e universais. O que muda de acordo com a cultura e o contexto social é o modo como cada um irá buscar satisfazer essas necessidades
  • As necessidades humanas propostas por Max Neef são: subsistência, proteção, afeto, entendimento, participação, tempo livre, criação, identidade e liberdade.
  • O esforço das pessoas por satisfazer suas necessidades é o que irá moldar o seu dia a dia.
  • Qualquer necessidade humana que for profundamente insatisfeita em termos de intensidade e duração irá produzir patologias e contribuir para os grandes problemas da humanidade
  • As necessidades humanas precisam ser entendidas como um sistema, e estão todas inter-relacionadas. Sua teoria difere-se da pirâmide de Maslow que trata as necessidades de modo isolado.

Um grande problema com o modo como nossa sociedade passou a se organizar, principalmente após a Revolução Industrial, é que passamos a desenvolver sistemas, soluções, produtos e relações pensando nas necessidades de forma isolada, ou muitas vezes sem nem mesmo realmente considerá-las. Quantas vezes ouvimos em reuniões de marketing e estratégia sobre a criação de demanda e geração de desejo no consumidor? Quantas vezes desconsideramos em nossas relações nossa necessidade de identidade, liberdade, entendimento? Por muitos anos nos acostumamos a construir sistemas e nossas próprias vidas de modo a criar e satisfazer desejos e não a satisfazer necessidades genuínas.

Como comumente satisfazemos nossas necessidades?

Max Neef sugere as cinco principais formas que tentamos satisfazer nossas necessidades:

  • Infratores: sugerem satisfazer as necessidades, quando de fato tornam mais difícil satisfazer uma necessidade. Por exemplo, bebemos um refrigerante que anuncia satisfazer nossa sede, mas possui ingredientes que nos fazem urinar mais e assim nos deixam mais desidratados. Ou optamos por nos relacionar casualmente com alguém, quando de fato o que buscamos é um afeto genuíno que aquela relação casual não irá proporcionar. Desse modo nos sentimos ainda mais vazios após o encontro.
  • Pseudo satisfazer: sugerem satisfazer uma necessidade, quando de fato tem pouco ou nenhum efeito sobre uma necessidade. Max Neef cita como exemplo os símbolos de status social, e podemos pensar o mesmo sobre o status de relacionamento. Dar um nome para a relação ou assumir um namoro ou um noivado pode, a princípio, ajudar a identificar o que estamos vivendo. Por outro lado,  trazem consigo o potencial de sermos absorvidos pelo conceito e assim nos esquecermos do que realmente queremos criar para além daquele rótulo. (vide “relações de facebook”  nas quais fotos e declarações públicas escondem de fato relações altamente infelizes)
  • Inibidores: aqueles que super satisfazem uma determinada necessidade, mas por outro lado inibem seriamente a possibilidade de satisfazer outras necessidades. Geralmente os inibidores são costumes, hábitos e rituais enraizados. Por exemplo,  venho observado que a cultura “amorosa” brasileira se difere de alguns países europeus. Diferente de muitos casais europeus que conversei, os casais no Brasil tendem a criar relações superprotetoras que supersatisfazem a necessidade de afeto e muitas vezes sufocam a liberdade e a identidade.
  • Satisfazer singularmente: satisfazem apenas uma necessidade particular, e desconsideram a natureza sistêmica das necessidades humanas. Por exemplo, podemos criar relações que satisfazem nossa necessidade de afeto, mas desconsideram nossa necessidade de entendimento e assim são altamente conflituosas.
  • Satisfazer sinergicamente: satisfazer uma necessidade contribuindo simultaneamente para a satisfação de outras necessidades. Max Neef cita como exemplo a amamentação que dá não só subsistência a criação, como também proteção, afeto e identidade.

E o que acontece quando não satisfazemos nossas necessidades é a  multiplicação exponencial dos  artefatos , alimentando o mercado de consumo e contribuindo para geração de problemas universais. Por exemplo quando criamos um artefato para pseudosatisfazer a necessidade de subsistência de um bebê, ele não satisfaz a necessidade de afeto, proteção e identidade que a amamentação é capaz de gerar ou prover. . Assim procuramos outros artefatos que irão pseudosatisfazer as outras necessidades, o que irá causar doenças psicológicas e patológicas em um ciclo que alimenta o mercado de consumo, corroborando com problemas universais tais como gasto excessivo de energia e produção de lixo, e de fato não alimentando verdadeiramente as necessidades humanas. Não seria o mesmo com nossas relações? Construímos relações que pseudosatisfazem nossas necessidades, e muitas vezes entramos em um ciclo de “consumo” onde pulamos de pessoa em pessoa, relação em relação, necessidade em necessidade.

Desconhecendo verdadeiramente a essência das nossas necessidades, muitas vezes entramos em diferentes vícios de relacionamentos nos quais não satisfazemos realmente nossas necessidades. Algumas vezes nos tornamos obcecados com a ideia de estar com alguém e assim criamos relações por conveniência. Outras vezes buscamos chamar atenção e reafirmar nossa identidade como “pegadores” e nos envolvemos constantemente em relações casuais e sem significado. Em muitos casos construímos relações e interações que satisfazem uma ou outra necessidade de forma isolada , e de um modo ou de outro estamos exaustos e correndo e dopados e vazios.

Quais artefatos usamos e consumimos para tentar satisfazer nossas necessidades? Como estamos pseudosatisfazendo nossas necessidades? O que podemos fazer a partir de agora para criarmos relações, trabalhos e sistemas que nos acordem e nos preencham verdadeiramente?

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