Encontros, desencontros e os contratos mal estabelecidos das relações

Muitas relações são feitas de contratos mal estabelecidos entre pessoas que na ausência de advogados para decifrar as letras miúdas, fecham um contrato sem ler e algum tempo depois contestam cláusulas que estavam o tempo todo lá. Partimos do princípio que as cláusulas são universais, e por isso não há necessidade de ler até o final. Venho observado que qualquer relação é assim, feita de encontros que quando mal acordados culminam em desencontros.

Tudo começou no meu primeiro dia na Europa. Eu só queria uma informação do motorista de ônibus, e alguma cláusula passou batido quando ele se sentiu ofendido ao julgar que eu estava duvidando do que ele me falava. Fiquei assustada e quis encerrar ali mesmo nossa relação que mal havia começado.

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Com a passagem já comprada resolvi lhe dar uma segunda chance, afinal, eu precisava economizar, desconheço os motivos os quais ele poderia estar ofendido e ele desconhece os motivos os quais eu ficaria tão assustada com sua fala.O mesmo aconteceu algumas vezes nas minhas duas primeiras semanas na Europa e logo entendi que precisava ter em mente que o espaço de interlocução envolve nuances relacionadas ao universo de cada um. A verdade é que todos nós temos a nossa boa dose de letras miúdas, e julgando serem óbvias demais deixamos passar batido, e nos momentos de desencontro temos pouca disposição a ler o outro para além do óbvio.

Se nas nossas relações do dia a dia o desencontro pode se dar antes mesmo do encontro, nas relações amorosas o encontro envolvido na embriaguez da paixão pode culminar em desencontros tão bruscos quanto.  Acontece mais ou menos assim: conheço alguém, me encanto, temos tanto em comum, há muito tempo não sinto algo assim, me apaixono. Quem sou eu, quem é você? Não sei muito bem, fica difícil dizer onde se encerra meu eu e começa você.

De repente, “algo” acontece. E esse “algo” pode ser em 1 mês ou 10 anos, você não sabe quando algo vai acontecer, você não se prepara para algo, algo simplesmente acontece. Para mim, algo não é nada, estava nas minhas cláusulas você não viu? E o outro clama aos quatro ventos que não me conhece mais, e olha, eu juro que estava o tempo todo lá. Esse talvez seja um dos grandes problemas no modo como ainda construímos nossas relações. Construímos relações baseadas em ilusões e projeções, nos perdemos uns nos outros, conhecemos muito pouco o espaço, os valores e o condicionamento do outro. E não queremos conhecer. Colocamos nós mesmos um véu que encobre a realidade de quem realmente é aquele outro ser. Por trás de toda a paixão, quem está ali?

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E assim ouvimos tantos casais dizerem “depois que algo aconteceu, perdeu o encanto”, e uma vez que o encanto se vai, o fim se torna inevitável. Acredito que estamos entrando para uma era onde precisaremos ser cada vez mais transparentes, é o que diz a astrologia, é o que indica a tecnologia, é o que espera a ecologia. E sendo mais transparentes, precisaremos cada vez mais nos esforçarmos para tirar os véus, um a um, com a coragem de quem topa se desencantar. Relacionamentos reais são feitos não só de paixão e encantamento, mas também de pactos e contratos. É chegada a hora de nos interessarmos pelas letras miúdas e finalmente nos reconhecermos conectados em um nível onde “algo” é muito superficial para que sejamos desconectados.

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