Como realizar melhores conversas para criar melhores relações?

O Love Hacking é um movimento que busca identificar os principais desafios nas relações hoje e como podemos hackear o amor para viver relações mais genuínas. Um dos maiores desafios nas relações que identifiquei no meu processo de investigação e nas minhas próprias experiências é a desconexão. Parece que vem se tornado crescente e habitual nossa dificuldade em nos conectarmos uns com os outros, e acredito eu, muito dessa falta de conexão tem como base o fato de não nos comunicarmos de maneira eficiente com as pessoas. Para termos melhores relações precisamos aprender a identificar nossa própria alienação emocional nas nossas conversas, a parte em que nós mesmos estamos contribuindo para tamanha falta de conexão. Como podemos então realizar melhores conversas para assim criamos melhores relações?

1-2 Como realizar melhores conversas para criar melhores relações?

Já faz um tempo que observo a qualidade das minhas conversas a partir da sensação que me é despertada após meus momentos de encontro, seja entre amigos e familiares, seja no meus ambientes de trabalho, seja em encontros amorosos. O que detectei é que muito raramente acontece uma troca intensa, verdadeira e recompensadora. O que me parece é que conversas sem significado, com um alto grau de superficialidade e até mesmo uma certa falsidade e agressividade tem ditado muito das conversas que temos hoje em dia. A sensação é que nos desconectamos uns dos outros o tempo todo, seja através de atritos, seja através da falta de conversas que proporcionam conexões reais.

Porque nos comunicamos?

A essência da comunicação é a conexão. Nos comunicamos porque queremos nos reconhecer uns nos outros. Mesmo quando estamos gritando e xingando, o que buscamos é uma troca saudável. A verdade é que muitas vezes queremos tanto nos conectarmos, que evitamos a comunicação real, seja turvando nossa objetividade em momentos de conflito, seja não expondo as nossas vulnerabilidades e não aceitando as do outro.

A comunicação é muito mais que um espaço de transmissão de ideias, é um espaço para transitar e co-criar. Por isso, antes de sermos demasiadamente simpáticos ou agressivos em nossas comunicações, precisamos nos lembrar que o que realmente queremos é o contato genuíno e isso só é possível quando desistimos da ideia de conquistar, dominar e convencer.

Os problemas de comunicação

Faz parte da nossa cultura e do nosso sistema de valores de maneira geral a ideia de sucesso, que traz intrínseca a ideia de competição e consequentemente que precisamos ganhar toda e qualquer coisa. Nossa linguagem tem raiz nesses mesmos valores, e por isso muitas das vezes que nos comunicamos com as pessoas buscamos conquistar, dominar e convencer.  

Vamos pensar nas nossas relações amorosas. Quando conhecemos alguém, será que tentamos nos conectar ou será que sobressai nosso desejo de sermos admirados? Será que buscamos nos relacionar ou conquistar? E dentro de relações mais estáveis, na existência de um conflito, será que realmente buscamos nos relacionar ou apenas convencer o outro de que ele está errado?

Trocamos mensagens com nossos amigos e amantes da hora que acordamos a hora que dormimos, estamos o tempo todo falando, mas a impressão é que estamos fazendo qualquer coisa, menos nos comunicando.

Melhores conversas, melhores relações

2-1-169x300 Como realizar melhores conversas para criar melhores relações?

Aumentar nossas habilidades de realizarmos melhores conversas é um longo caminho de transformação, e por isso é um longo caminho de abandono de mentalidades e padrões que construímos desde a infância, mas não nos cabem mais. Para ajudar reuni algumas das principais práticas que tenho testado para hackear as minhas relações.

O dom da escuta e a qualidade da atenção

Conversando com alguns amigos, eles falaram que a maior dificuldade do homem é “dar branco” ao conversar com uma mulher, ou seja, ficar sem respostas. Eu mesma já reparei que quando estou conversando com alguém, seja em um momento de confronto, seja até em momentos de ouvir um desabafo, minha mente fica incessantemente pensando nas respostas. Mas, vamos pensar, qual é o problema de ficar sem resposta?

A nossa necessidade de ter resposta para tudo nos leva a respostas prontas, a repetição dos nossos próprios clichês internos, o que mina completamente aquele contato genuíno que buscamos. A comunicação e a conexão só acontecem quando existe escuta, e escutar é uma das coisas que menos praticamos. Mais importante que se manter em silêncio no momento da fala do outro, é silenciar o nosso fluxo de pensamentos para nos conectarmos verdadeiramente ao que nos está sendo dito.

O Thinking Environment é uma metodologia que utilizo muito para me colocar na posição de escuta. Através das práticas propostas, aprendi a treinar minha posição de ouvinte equilibrando os três canais da escuta: escutar para absorver, escutar para responder e principalmente escutar para impulsionar. Todo fenômeno e toda pessoa quer se revelar para nós, e para termos relações mais autênticas podemos condicionar nossa escuta para que o outro revele o que há de mais essencial em si.

Empatia e compaixão

Praticar a empatia e a compaixão em uma conversa é sair do seu próprio mundo e utilizar o referencial do outro. Qualquer pessoa que nos relacionamos tem outro mundo, outra historia, outro universo e por isso irá pensar e agir diferente. Ao praticarmos a empatia em nossas conversas não só desistimos da ideia de convencer o outro a pensar como nós, como aproveitamos a comunicação como um momento de enriquecer nosso próprio mundo, e é aí que nos relacionamos, trocamos, conectamos.

Para praticar isso e chegar efetivamente em um nível profundo de escuta na qual estou com cabeça, coração e vontade aberta utilizo a Teoria U, a Comunicação não violenta e o Thinking Environment. É necessário sair do nível da cabeça para adquirir uma postura de abertura para se conectar com aquilo de novo que é apresentado para mim. Independente de eu concordar ou não, será que existe algum lugar em que me conecto com aquilo? Será que consigo sentir de onde vem o que outras pessoas me trazem? Seria possível ler os sentimentos e as necessidades por trás da fala do outro?

Podemos aprender a parar de usar nossa comunicação como forma de validação e de apego as nossas identidades, e assim criar espaço para o novo emergir em nós, nas nossas relações e no mundo. 

Mensagem centrada no “eu”

Temos o hábito de despejarmos nossas necessidades e frustrações no outro, mas a verdade é que sempre que sentimos alguma coisa aquilo pertence a nós mesmos. Li esses dias no facebook da Alana Trauczynksi

A sua insegurança é assunto seu. O outro sempre só está agindo de acordo com o buraco existencial que você cavou em si mesmo.”

Quando entendemos que o quer que estejamos sentindo é responsabilidade nossa e identificamos com clareza nossos sentimentos dentro daqueles contextos, conseguimos focar a mensagem em nós mesmos e assim nos comunicamos com mais objetividade. Assim ao invés de falarmos algo como “não acredito que você vai fazer isso comigo”, uma frase que automaticamente coloca o outro em estado de defesa e bloqueia a escuta, apresentamos nossa insatisfação em frases como “quando você faz isso comigo, eu me sinto mal porque…”. Ao centrar a mensagem no “eu”, nós tiramos o peso do outro, e criamos uma conexão mais verdadeira mesmo em meio a uma discussão.

Podemos fazer o mesmo quando ouvimos a insatisfação do outro. Será que quando ele despeja sua insatisfação sobre mim, ele não está secretamente me enviando um “pedido de socorro”? Quando conseguimos identificar sentimentos e necessidades na mensagem do outro, paramos de levar para o pessoal e ficamos até mesmo gratos por agirmos como veículo para o crescimento daqueles que se relacionam conosco.

Objetividade e comunicação efetiva

No livro “Mudando o padrão dos relacionamentos íntimos” da Dra Harriet Lerner, são apresentados 2 padrões típicos de conversas em relacionamentos: a pessoa boazinha, que evita a todo custo o conflito, e a pessoa irritadiça que apresenta a todo tempo suas queixas e censuras, e eu acredito que a mesma pessoa pode oscilar entre as duas. Segundo a autora, ambas as comunicações servem para proteger o outro, turvar nossa objetividade, e garantir que a mudança que desejamos NÃO ocorra.

Um padrão que observo em relações que estão começando é o “engolir sapo” e ser a pessoa legalzona o tempo todo, afinal, no início ainda inexiste uma intimidade que permita expressar descontentamentos. Mas a verdade é que é impossível estabelecer conexão genuína quando não nos expressamos, e quanto mais fazemos isso, maior fica o abismo emocional entre o casal. O conflito pode levar a profundidade de uma relação, desde que tenha como base uma comunicação autêntica e eficaz. 

Para estabelecer essa comunicação efetiva e com objetividade, é importante primeiramente identificar o que está acontecendo e a razão por trás dos incômodos que sentimos. É um exercício constante de autoconhecimento, que eu faço através do uso de perguntas. Porquê isso está me incomodando? Feito isso é possível observar fatos concretos (e não julgamentos e generalizações), como nos sentimos em relação ao outro, focar em nossas necessidades não atendidas naquela e expressar pedidos claros e específicos através de uma postura calma, porém persistente. Essa sempre foi uma grande dificuldade para mim porque muitas vezes prefiro não falar para evitar o conflito. Nesse caso ou a conexão era perdida em tal grau que a relação perde o sentido, ou quando ia falar me expressava de forma agressiva.

Essas são apenas algumas de várias formas para tentar realizar melhores conversas e assim criar melhores relações. Independente do modo em que vamos experimentar isso em nossas vidas, acredito que o mais importante é nos lembrarmos da essência da comunicação, que é buscar em todo e qualquer contato a conexão genuína, e nada mais que isso. Só assim conseguiremos nos expor sem tantos medos, sem tantas amarras e sem tanto atrito.

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Fontes:

Livro Mudando os padrões dos relacionamentos intímos – Dra Laura Harriet

http://papodehomem.com.br/sem-palavras-fala-de-coracao/

http://olugar.org/pratica/falar-com-o-coracao/

http://papodehomem.com.br/como-fazer-melhores-criticas-e-ser-ouvido/

http://papodehomem.com.br/comunicacao-nao-violenta-o-que-e-e-como-praticar/

http://papodehomem.com.br/ouvir-alem-das-palavras-o-que-e-e-como-fazer/

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